O atacarejo subiu e o seu preço não. Na última compra o item custava R$ 6,20, agora custa R$ 7,40, e a etiqueta da prateleira continua dizendo R$ 7,00. Ninguém reclama, o produto continua saindo, e cada unidade vendida leva dinheiro embora.
Esse é o prejuízo mais difícil de ver no mercadinho. Não trava o caixa, não gera reclamação, só aparece no fim do mês, quando o dinheiro não acompanha o movimento. O caminho para enxergar começa por um número: o custo médio do produto.
Os valores deste texto são exemplo. O jeito de montar o preço do zero, com markup e margem, está em como calcular o preço de venda no mercadinho. Aqui o assunto é outro: o preço que já existe e o custo que mudou por baixo dele.
Por que o prejuízo não faz barulho
A margem de lucro do setor de mercadinhos fica entre 15% e 25%. É pouco espaço. Um aumento de R$ 1,20 num item de R$ 7,00 come mais do que isso sozinho, e a perda média de estoque, de 2,79% do faturamento, ainda sai da mesma sobra.
O aumento chega aos poucos. Um fornecedor sobe em março, outro em abril, o atacarejo muda a tabela sem avisar. Quem compra duas vezes por semana não lembra o custo de cada item, e a etiqueta fica como estava. O preço não ficou errado de uma vez: ele foi ficando errado.
O que é custo médio do produto?
Custo médio é quanto custa, em média, cada unidade que está na sua prateleira agora. Ele mistura o estoque que já estava lá com a compra nova, pesando pela quantidade de cada um.
Faz sentido porque a prateleira mistura as duas compras. As 20 unidades antigas foram pagas a um preço, as 30 novas a outro, e todas vão sair pelo mesmo preço de etiqueta. O custo médio responde quanto você pagou por aquilo que está vendendo hoje.
Como calcular, com um exemplo
A conta tem três passos:
- 1Valor do que já estava. Quantidade em estoque vezes o custo dela.
- 2Valor da compra nova. Quantidade comprada vezes o custo novo.
- 3Divida pelo total. Some os dois valores e divida pela soma das unidades.
No exemplo: sobraram 20 unidades compradas a R$ 6,20, que valem R$ 124,00. Chegaram 30 a R$ 7,40, que valem R$ 222,00. São R$ 346,00 por 50 unidades, então o custo médio é R$ 6,92.
| Exemplo | Custo | Preço R$ 7,00 | Sobra por unidade |
|---|---|---|---|
| Custo da compra antiga | R$ 6,20 | R$ 7,00 | R$ 0,80 |
| Custo médio depois da compra nova | R$ 6,92 | R$ 7,00 | R$ 0,08 |
| Custo da compra nova | R$ 7,40 | R$ 7,00 | − R$ 0,40 |
Com R$ 0,08 de sobra por unidade, o produto já não paga a própria parte do aluguel e da luz. E quando as 20 unidades antigas acabarem, o custo da prateleira inteira passa a ser R$ 7,40. A partir daí, cada venda perde R$ 0,40.
Custo médio ou último preço: qual usar?
Os dois servem, para perguntas diferentes.
O custo médio responde “quanto estou ganhando hoje?”
Ele representa o que está guardado, então é o número certo para a margem de agora e para o resultado do mês. Usar só o último preço faria o mês parecer pior do que foi enquanto o estoque antigo ainda está saindo.
O último preço responde “quanto vai custar repor?”
Ele avisa para onde o custo médio vai quando o estoque antigo acabar. Se o último preço já passou o preço de venda, o prejuízo está marcado para daqui a alguns dias, mesmo que a margem de hoje ainda pareça positiva.
Como achar quem ficou abaixo do custo
Conferir os 800 itens da loja de uma vez não acontece. Comece pelos que mais saem, porque é neles que um centavo errado vira dinheiro de verdade.
- 1Separe os 10 que mais vendem. Arroz, feijão, óleo, leite, café, refrigerante. O que sai todo dia.
- 2Pegue o custo da última compra de cada um. Na nota, no cupom do atacarejo ou no caderno de compras.
- 3Compare com a etiqueta. Marque quem tem custo acima do preço e quem tem sobra menor do que a margem que você quer.
- 4Repita a cada compra grande. A lista não fica pronta para sempre. O custo muda de novo na próxima ida ao atacarejo.
Esse controle de dez linhas cabe num papel. O que não cabe é repetir a conta toda semana para a loja inteira, e é aí que a planilha e o caderno param de acompanhar.
O que fazer depois de achar
Para cada produto marcado, escolha uma de três saídas, de propósito:
- Repassar agora. Quando o último preço já passou a etiqueta e o produto não é o que traz o cliente para dentro.
- Repassar quando o estoque antigo acabar. Quando o custo médio ainda deixa margem e você quer ganhar alguns dias.
- Segurar o preço. Quando o item puxa venda de outros. Aí a decisão é consciente e o prejuízo tem um motivo.
O que não dá é deixar parado. Produto que vende no prejuízo e ainda encalha na prateleira perde duas vezes: na margem e no dinheiro preso. Como achar esse segundo buraco está em controle de estoque simples.
Na Prosa, cada compra atualiza o custo médio do produto e guarda o último preço pago. A ficha mostra os dois lado a lado, sugere o preço pela margem que você escolheu e pinta a margem de vermelho quando o produto está no prejuízo.
Perguntas frequentes
Como calcular o custo médio de um produto?
Multiplique a quantidade que já estava em estoque pelo custo dela, some com a quantidade da compra nova vezes o custo novo e divida pelo total de unidades. O resultado é o custo de cada unidade guardada hoje.
Quando o fornecedor aumenta, preciso mudar o preço na hora?
Não precisa mudar no mesmo dia, mas precisa olhar no mesmo dia. Veja quanto a margem caiu com o custo novo e decida se repassa agora, se repassa quando o estoque antigo acabar ou se segura o preço de propósito.
Vender abaixo do custo é sempre erro?
Nem sempre. Queimar um produto perto do vencimento ou segurar o preço do item que traz o cliente pode ser escolha. O erro é vender no prejuízo sem saber, porque aí ninguém decidiu nada.