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Comunidade

Loja do EJC: como prestar contas e repassar a comissão

Equipe Prosa6 min de leitura

A loja do encontro fecha no domingo à noite. Na segunda, a coordenação faz a única pergunta que importa: quanto sobrou? Se a resposta for o valor que estava na gaveta, a conta está errada.

Comércio em volta de evento de igreja não é miudeza. O turismo religioso movimenta cerca de R$ 15 bilhões por ano no Brasil, em 8,1 milhões de viagens domésticas. Na Romaria de Trindade, em Goiás, 4,2 milhões de romeiros movimentaram cerca de R$ 50 milhões em 2026, e há lojas da região que tiram até 20% do faturamento anual desse período. A loja de um EJC é outra escala, claro. O problema é o mesmo: dinheiro de terceiros passando pela mão de voluntários em três dias.

O que resolve isso não é desconfiança. É combinar antes, registrar durante e entregar uma página depois.

O que a coordenação precisa ver

Prestar contas é mostrar seis linhas, nesta ordem:

  1. 1Receita bruta, separada por forma de pagamento. Dinheiro, Pix, cartão e fiado em linhas próprias. Sem essa separação, ninguém consegue conferir a gaveta.
  2. 2Custo dos produtos vendidos. O que a equipe pagou pelo que saiu da prateleira — não pelo estoque inteiro que comprou.
  3. 3Perdas. O que quebrou, venceu, derreteu ou foi dado. Essa linha existe justamente para não virar buraco no caixa.
  4. 4Despesas do encontro. Gelo, sacola, aluguel de freezer, gasolina da compra, troco inicial que não voltou.
  5. 5Comissão da comunidade. A parte combinada com a paróquia.
  6. 6Resultado líquido. O que sobra depois de tudo isso.

Receita bruta não é resultado, e é aí que quase toda equipe se perde. Exemplo: a loja arrecadou R$ 1.240,00 no fim de semana. Os produtos vendidos custaram R$ 620,00. As perdas somaram R$ 35,00, as despesas R$ 80,00 e a comissão da comunidade R$ 124,00. Sobraram R$ 381,00. Quem anuncia “a loja fez mil e duzentos” está falando de um número que nunca foi da equipe.

Antes do encontro: combinar por escrito

Quatro decisões precisam estar em papel antes da primeira compra de estoque:

  • Quem banca o estoque inicial. A paróquia adianta, a equipe rateia ou o fornecedor entrega em consignação — e, em qualquer um dos casos, quando esse dinheiro volta.
  • Qual é a parte da comunidade. Um percentual ou um valor fixo, e sobre qual número ele incide.
  • Quem pode dar desconto e brinde. Duas ou três pessoas, com um teto. Sem isso, o refrigerante de cortesia vira prejuízo que ninguém consegue apontar.
  • O que acontece com o que sobrar. Volta para o fornecedor, fica para o próximo encontro ou é doado. Decidir isso na segunda-feira é decidir tarde.

A rifa da paróquia já funciona assim há décadas. Campanhas de rifa de igreja costumam durar de 30 a 60 dias, com bilhete de R$ 5 a R$ 20, e o preço está impresso antes de alguém vender o primeiro. Ninguém acha isso burocracia.

Meia página assinada por quem coordena e por quem cuida da loja protege a equipe; não desconfia dela. O acordo evita exatamente a conversa de domingo à noite, com todo mundo cansado, em que cada um lembra do combinado de um jeito diferente.

Durante: um caixa só, várias mãos

Vender é trabalho de muita gente. Receber não.

  • Uma pessoa responde pelo caixa por turno. Ela abre, fecha e conta. Os outros vendem, entregam, repõem e chamam essa pessoa na hora de receber.
  • A forma de pagamento entra no registro na hora da venda. Dinheiro, Pix, cartão ou fiado. É isso, e só isso, que permite conferir a gaveta no fim do turno: o que o registro diz que entrou em dinheiro tem que ser o que está lá.
  • Sangria quando o dinheiro acumula. Passou de um valor combinado, alguém retira, anota e guarda em outro lugar. Caixa de encontro fica aberto sobre uma mesa, em meio a gente circulando.

Como calcular a comissão da comunidade

Há duas formas de combinar o repasse, e as duas funcionam:

CombinadoBom paraCuidado
Percentual sobre as vendasEncontro com movimento incerto: se vender pouco, a comunidade recebe pouco, e a equipe não fica devendoPrecisa dizer se incide sobre a receita bruta ou sobre o resultado
Valor fixoPrevisibilidade: a paróquia sabe o número antes e pode contar com ele no orçamentoSe o encontro vender menos que o esperado, a diferença sai do bolso da equipe

A pergunta que mais gera briga é sobre qual número o percentual incide. Voltando ao exemplo: receita bruta de R$ 1.240,00, custo dos produtos de R$ 620,00, perdas de R$ 35,00 e despesas de R$ 80,00. Uma comissão de 10% sobre a receita bruta dá R$ 124,00. Sobre o resultado antes da comissão, que é de R$ 505,00, os mesmos 10% dão R$ 50,50.

São R$ 73,50 de diferença no mesmo acordo de “dez por cento”. O papel precisa dizer qual das duas, com essas palavras. Perceba também que o percentual sobre a receita bruta não olha para o custo: se a equipe vender muito barato, ela paga comissão sobre uma venda que quase não deu lucro.

Percentual sobre arrecadação é comum nas campanhas de comunidade. As plataformas de rifa cobram 6,90% por venda, taxa que cai até 1,90% conforme a campanha cresce, mais R$ 0,99 fixo por bilhete abaixo de R$ 9,90. Ninguém reclama porque está escrito na contratação. A comissão da loja do encontro só precisa da mesma clareza.

O relatório: uma página, seis linhas

O relatório da loja cabe numa folha. As seis linhas em cima, o romaneio embaixo: o que entrou de estoque, o que saiu vendido, o que sobrou e voltou. Nada de anexo, planilha compartilhada ou apresentação.

O prazo importa tanto quanto o conteúdo. Entregue no mesmo fim de semana, o relatório é a conferência de quem viveu o encontro — todo mundo ainda lembra do freezer alugado e do gelo comprado às pressas no sábado. Entregue um mês depois, vira um documento que a coordenação lê sozinha, sem ninguém para confirmar nada. Imprima duas vias: uma fica com a coordenação, outra com a equipe.

Passar a loja para a próxima equipe

Em encontro de jovens, a equipe troca. É a regra, não a exceção. O que não pode trocar é o histórico: ele pertence à comunidade, não ao computador de quem cuidou da loja neste ano. Arquivo numa pasta pessoal e planilha no celular de um voluntário somem na primeira formatação.

O que a próxima equipe precisa receber:

  • o preço praticado em cada item, e não só o que foi pago ao fornecedor;
  • o que vendeu de verdade, na ordem — é isso que dimensiona a compra do ano seguinte;
  • o que sobrou, e por quê;
  • os contatos de fornecedor, com prazo de entrega e pedido mínimo.

Uma equipe que começa com esses quatro dados não repete a compra errada. Uma equipe que começa do zero repete todas.

A Prosa guarda esse histórico na loja da comunidade e monta a prestação de contas do encontro numa página imprimível, com as seis linhas e o romaneio já somados. Se a sua equipe também monta barraca em festa de paróquia ou feira, o guia de vendas em feiras trata da parte de fora do encontro.

Fontes

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